segunda-feira, 21 de setembro de 2009

OLHAR INFANTIL

OLHAR INFANTIL



Está sentado...Talvez um metro e dez de altura, vinte quilos de tanto comer balas, chocolates e bolachas gostosas. Cabelos finos e loiros, cabelo de milho. Um olhar grande e macio, que pousa nas coisas com interesse. Um olhar infantil. De nome Ricardo, mas a essa altura, o melhor era chamá-lo de Tato, com um tê só. Menino vivo. Fazedor de perguntas complicadas, que dão nó na cabeça da gente.
Há tempo que estava sentado na velha poltrona que um dia fora do avô. Olhos parados no infinito, boca entreaberta, olhando o mapa da cidade pregado na parede. De repente, a idéia: queria conhecer o centro da cidade onde morava. Porto Alegre. Ouvira falar que no centro havia de tudo: muita gente, muitas pernas trespassando. Que lá aconteciam coisas estranhas, que pra as crianças era difícil de explicar.
E Tato resolveu, pulando da poltrona, que era hora de enfrentar uma nova aventura. Foi ao quarto, colocou os tênis de passeio dos sábados e domingos, e saiu porta a fora, sem dizer palavra a ninguém.
Logo na primeira quadra, pensou: “Será que vou conseguir?”. E ele mesmo respondeu: só aventurando-se para saber.
Atravessou uma rua que já conhecia bem, e parou junto à parada de ônibus. Avistou o veículo, lá longe, e nisso assustou-se com uma mão que tocava no ombro dele. Arregalou os olhos e viu que era seu tio, que de sobrancelhas cerradas, perguntou:
- Aonde pensas que vais, guri? E ela estava muito braba.
- Vou passear no centro da cidade, quero conhecer.
- Ora, menino, que maluquice é esta! Você é um piazinho para andar por aí, sozinho. Não poderia nem ter saído de casa. Seu olhar era infantil.

- Olha, tio, eu até posso ser um menino, posso ter até o olhar infantil, mas sei me cuidar sozinho.
O tio estava furioso, mesmo assim disse ao menino que o levaria ao centro. E, no trajeto, sentados no banco do ônibus, explicou que olhar infantil é aquele que a gente só enxerga as coisas boas, um olhar ingênuo. Que no centro de Porto Alegre ele teria uma visão mais triste da vida. Ricardo, nem bola, olhava a paisagem. Pensava que lá as pessoas corriam muito para chegar aos lugares, e quando lá chegavam, alguém lhe entregava um papel que diria para correrem a outros lugares. E assim passavam muito tempo correndo, numa busca que não tinha fim.
Quase no centro, combinaram, tio e sobrinho, que um não faria perguntas um ao outro. O negócio era só olhar. Tato queria tirar suas próprias conclusões. Nisso o motorista gritou: “Centro! Desce todo mundo!”. Prontamente o garoto levantou do banco e desceu. Logo na descida do ônibus, ouviu Brigadianos que gritavam com vendedores de rua. Um desses vendedores estava algemado, e também gritava bastante. Depois avistou uma praça, - que o tio, intrometido, disse que ela se chamava de Praça Parobé. E logo apareceu outra praça, de nome Praça XV.
Pararam em frente a uma banca de jornal. Tato olhou para o moço que estava dentro da banca e perguntou:
- Senhor, possa dar uma olhada nas revistas?
O vendedor mal olhou para o menino, e respondeu rispidamente:
- Não pode folhear, não. Se não tem dinheiro, não olha. E vai embora que eu não quero pivete aqui!
Ricardo ficou assustado e largou uns soluços, quase chorando. Saiu a passinhos curtos, pensando: “tantas revistas e ele nem deixou eu olhar uma”. E saiu caminhando. Passou por uma avenida chamada Borges de Medeiros e atentou para uma velha gorda que gritava com madeirinhas na mãos:
- Olha a lixa! Olha a lixa! Lixa, senhora?
-Para que servem estas lixas, senhora? Perguntou o menino.
-Para surrar os meninos que fazem perguntas! Disse a vendedora agressivamente. E soltou uma gargalhada muito alta que até um cusco que andava as voltas saiu apavorado.
Mas o menino ia se acostumando com os xingamentos e barulheira. Desta vez não se assustou muito e defendeu-se como pode:
- Então a senhora não venderá nenhuma, pois as crianças não gostam de apanhar com estas porcarias. A velha deu uma olhadinha de desprezo para o garoto e continuou a gritar o nome do seu ganha-pão:
-Olha a lixa! Li-i-i-xas!
E foi andando o menino, sempre vigiado pelos olhos do tio, que a essa altura se divertia bastante com o sobrinho. E nisso o menino continuava a ouvir, enquanto muitas pernas vinham em sua direção, quase que o atropelando:
- A cobra! Olha a cobra, gurizada medonha. Vai dar a cobra na loteria federal. Co-o-bra!
- Mil setecentos e vinte e quatro! Quem nasceu nesta data! Vinte e quatro! Vai dar na loteria federal. Vê-ee-endo bilhete.
E ele, agora mais valente, observava com atenção as coisas: crianças, deitados nas ruas, fumando, dormindo em baixo das marquises, com roupas sujas. Outros meninos que paravam em frente a lojas que vendiam televisores; outros, já mais crescidos, com suas mãos de estendidas, pedindo esmolas, em busca de alguns trocados; e também homens de terno e gravata, que gritavam: “Jesus é o salvador!”, “Aleluia, irmãos!”; e outros homens e mulheres que com panfletinhos nas mãos diziam “corta cabelo, corta cabelo!”; e tinha também os vovôs e vovós que sentavam nas praças e tinham as caras tristes. E o menino admirava-se, seus olhos brilhantes enxergavam tudo com interesse, aquilo era muito real para ele: era a vida acontecendo.

E ainda tinha homens bem vestidos que gritavam números e nomes, e gente com santinhos nas mãos; mulheres que se esforçavam no rebolar, nas praças, com olhares carinhos aos homens que passavam. Elas que trocavam seu corpo por dinheiro, por mais uma manhã esperançosa. E as coisas assim corriam, voavam na frente do menino que se pasmava diante de tenta realidade.
Pensando nas coisas que via, deparou-se com uma rua muito colorida e chamativa. E em sua cabecinha aflorou uma esperança de ver algo que fugisse daquela rotina. Na rua dos Andradas só o que viu foram sapatos e pernas que se movimentavam agilmente em todas as direções. De repente, se assustou...
Com o medo a bater-lhe e o coração a palpitar pela boca, agarrou-se com firmeza a mão do tio e confessou:
- Estou com medo, tio.
O tio, que até então fazia o possível para não se meter nos pensamentos da criança, finalizou a proveitosa e real aventura do garoto:
- Tenha calma, menino. O que estás a presenciar hoje, nada mais é do que a vida acontecendo no centro de uma cidade grande. Fizemos parte de tudo isso.
E então o menino não olhou o cachorro, o velho encurvado, não deu bola para nada. Apenas disse, quase num sussurro:
- Eu não faço parte, tio...
E assim foram de mãos dadas, em direção ao ponto de ônibus. Na cabecinha de Ricardo, o pensamento era: “como é bom ser criança e ter sempre o olhar infantil”.

Para: Ricardo Carlos Bins Neto, meu sobrinho
Original em 16.03.1988.
Última revisão: abril de 2009.

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