A MENINA E A BORRACHA
Na pequena casinha de janelas vermelhas, morava uma menina muito bonita. Aline parecia uma boneca que caminhava e falava. Isso por seus cabelos loiros, olhos azuis, uma princesinha dos contos de fada. Andava sempre com o seu vestidinho azul e branco, tipo jardineira, e por nada deste mundo largava suas panelinhas de fazer comida de faz-de-conta.
Num dia feio de muita chuva e ventos, Aline, curiosa, observava seu tio no canto da sala onde brincava. Resolveu,então, aproximar-se dele com a intenção de saber por que havia tantos papéis em sua mesa. Por este motivo, esqueceu suas panelinhas e caminhou em direção a ele. Logo ao chegar perto da mesa velha e escura, atentou para um pedaço de borracha colorida que estava junto a papéis de escritas miúdas e confusas. A menina, sedenta em conhecer coisas novas, pegou a borracha e ficou um tempão a olhá-la. Aquele objeto macio trouxe perguntinhas à cabeça da menina. Assim, com sua voz suave perguntou ao tio, que a observava também curioso:
- Titio, o que é isso?
O tio, esquecendo-se das folhas de escrita confusa que estavam em cima da mesa, sussurrou numa voz cavernosa:
- Isto se chama borracha, e serve para apagar tudo o que há de errado no mundo!
Com esta resposta, Aline pensou numa nova brincadeira, uma brincadeira para nenhuma criança de três anos botar defeito: apagar tudo o que houvesse errado no seu mundo de gente pequena. Com um passinho curto e gracioso, a menina colocou em prática sua nova diversão. A dúvida ficava por onde começar. Nesse momento lembrou-se da mesa escura e velha que seu tio usava; iniciou, assim, apagando todas as madeiras que existiam na casa. Com isso, lá se foi a mesa feita de madeira nobre. Depois a menina apagou os muros e concretos que separavam as casas, e, conseqüentemente, as pessoas. Apagando o portão que servia de entrada para a sua casinha, aliás, ex-casa, pois já havia sido apagada pela menina, encontrou as ruas e começou a apagá-las também. Ela não queria mais ver aqueles carros e caminhões que faziam muito barulho e largavam tanta fumaça preta poluindo tudo. Ao chegar com sua borracha na pracinha, apagou todas as crianças que lá brincavam: foi egoísta, quis a praça só para ela. Mas pensando bem, teve que apagar a própria praça, pois estava tão suja!
E continuou a caminhar e apagar todas as coisas que o seu mundo não aceitava. Subindo numa escada alta, apagou as nuvens escuras que deixaram aquele dia tão feio, e depois apagou o sol e por fim o céu. Ao descer da escada, a menina olhou para baixo e viu muitas pessoas que andavam apressadamente nas ruas que ainda não tinham sido apagadas. E olhou com tristeza aqueles que moravam em casa feias, sujas e pequenas; e também ficou triste com aqueles que moravam em casa grandes, lindas, floridas de belos girassóis Aline ficou confusa e resolveu apagar todas as pessoas grandes e as coisas que os cercavam.
Quando a noite chegou, e menina subiu na mesma escada e apagou, dessa vez, a luz, os astros e o além que os homens imaginam existir. Ao descer novamente a escada, só avistou o chão da terra. Com rápidas braçadas, apagou todo o resto, tudinho que ainda restava. Fora, assim, um dia cansativo para a menina Aline; fechando os olhos, pegou no sono. E como se não bastasse o apagamento de tudo, com um resto de borracha que havia sobrado, apagou os sonhos que ainda restavam em sua cabecinha.
Depois de muito dormir, despertou para um mundo mergulhado na escuridão. Pois o nada era tudo o que restara de sua brincadeira. A bonequinha de cabelos loiros pulou da cama com seus passinhos miúdos e indecisos. Com lágrimas, pensou: “-Se tudo o que existiu no mundo não significava nada, como é triste descobrir que do meu mundo não sobrou mais nada. Tinha tudo e pensava que não tinha nada. Agora, o nada nem mais nada é”.
Enquanto pensava nisso, e as lágrimas caindo dos grandes olhos azuis, avistou um vulto que caminhava em sua direção. Logo ficou com medo, mas não demorou muito e identificou que quem vinha era o tio, com os seus papéis em baixo do braço. A menina saiu correndo e o abraçou alegremente aquele que esquecera de apagar. E o tio, por poeta-sonhador que era, tirou do bolso da camisa lápis de cores e convidou a menina para desenhar, novamente, o mundo que um dia Aline apagou.
Escrito em 17 de abril de 1987
Para Aline Zeller Branchi, minha sobrinha
Digitado em Março de 2005.
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