A MENINA DO ANEL
Cidadezinha do interior. Mundo diferente: casas espalhadas nos morros. Vista de cima, muitas cores a embelezar um mundinho distante. Quem a olhasse de longe, diria se tratar de uma grande árvore de Natal, com suas cores e encantos. As casinhas coloridas pareciam bolinhas de Natal, enfeitando um mundo tranqüilo, calmo, bonito para os olhos e para alma.
Pois era inverno e o minuano, vento gelado por demais, soprava numa intensidade que o povo sentia nos ossos. A maioria dos moradores se protegia em suas casa, à beira do fogão à lenha, enquanto o pão ia assando e a água esquentava para o chimarrão. Em uma ruazinha em particular, chamada Florida, morava uma família italiana, alegre. A casa era modesta, mas a gente percebia que ali havia felicidade pela disposição dos móveis, pelas violetas na janela, pelo quadro na parede, pelas frutas na bandeja. Além do pai e da mãe, havia duas meninas: Bruna e Maria Isabel. A primeira era uma menina dócil, grandes olhos verdes e sonhadores; Maria Isabel, a menor, um par de anos, agitadinha, atenta, e um sorriso que não tinha fim. Bruna, pela manhã, bem cedo, entregava os pães que sua mãe fazia. Encomendas que davam uns trocados extras para a família. Bruna já novinha, sete ou oito anos, percebia que aquele trabalho era duro, que melhor era brincar de boneca com as meninas, mas fazer o quê! À tarde, ia para a escola. Maria Isabel, digamos uma menininha de muita energia, olhar atento, curioso, passava o tempo correndo, mexendo, comendo, vivendo cada minuto. Gostava de se enrolar em velhos novelos de lã, picar jornais já lidos, colar pauzinho de picolé: construir histórias. Seus brinquedos eram aqueles que ela inventava, e assim ela ia criando o seu mundo.
Bem, mas tinha o vento minuano que soprava com fúria naquele dia. Um dia especial. O vento insistia em alguma coisa...
O vento tornava-se a cada instante mais violento e gelado, logo trouxe consigo uma chuva miúda, cortante. O povoado começou a ficar assustado, nunca tinham visto tanta insistência num vento chato, e agora molhado. Vento molhado. E logo vieram raios que desenhavam no céu rios e veredas eletrizantes. A angústia dos moradores aumentava.
A família da rua Florida também ficou preocupada. A mãe, nervosa, olhava pela janela na esperança de que o marido voltasse mais cedo. Ele era funcionário do governo, e sabe-se lá onde andava. Bruna escondia-se entre os cobertores, abafando, assim, o barulho das trovoadas. Lá, entre as cobertas, pensava: “deve ser guerra entre anjos e diabinhos, lá em cima”. Maria Isabel, sempre curiosa, ao lado da mãe na janela, olhava o céu, e se divertia. Estava fascinada com as transformações. Ela sorria, (coisa que só ela entendia).
E a coisa piorava. A manhã era uma noite chuvosa, ventosa, horrível. No relógio da praça central, a mãe observava que eram dez horas. Foi aqui, segundo se comentou depois, que o episódio aconteceu.
Olhando para o céu, via-se as nuvem chocando-se entre si. O medo no povoado era grande. Nas casas, recolhidos, os habitantes diziam que era o fim do mundo, outros amenizavam falando que se tratava de um espetáculo da natureza. De fato todos estavam pasmados, paralisados, esperando o que ia acontecer lá no alto. O meteorologista da cidade foi consultado, disse que era coisa passageira, logo tudo se acalmaria. O tempo passava em câmara lenta, as nuvens aglomeravam-se numa massa que mais parecia um chumbo gigante, com figuras estranhas. Os fiéis dirigiam-se à igreja. O padre, à porta, acalmava os cordeiros dizendo que tudo Deus podia, e o que viesse a acontecer seria para o bem de todos. Para aqueles que não acreditavam em Deus, tudo se dirigia à catástrofe: o morro ia desabar, como certeza.
E a sensação de morte persistia no assustado povoado. Havia gente que já emendava uma promessa e jurava não pecar. A desgraça os deixava mais humildes e unidos. Nas casas, as mães protegiam os filhos, colocando-os nos colos. Cachorros encolhiam-se nos cantos, tinham aquele olhar piedoso. A destruição era certa, as nuvens gigantes e horrorosas desabariam e acabariam com tudo. O tempo passava, era tarde para qualquer pedido de desculpa, o relógio da praça marcava meio dia.
O dia fechou por completo. No céu, as nuvens unidas cada vez mais, formavam uma concha medonha, logo aquilo ia explodir. A concha foi descendo, com certeza ia engolir a cidade. Um morro devorado, tragado. Na casinha da rua Florida, o medo era igual. Mesmo com o marido em casa, quase todos estavam apreensivos, menos a menina Maria Isabel, que só não estava à janela porque o pai a chamara. O fogão à lenha aquecia a todos, o pai até tentava contar uma historia para distrair as meninas, mas com as trovoadas, perdia o rumo . Bruna saíra do cobertor logo que sentiu coragem. Maria Isabel, sempre sorrindo, quando dava, espiava a concha. Talvez ela esperasse alguma coisa...
E o tempo passava, todos naquela apreensão. No relógio da praça avistava-se seis horas da tarde. O povoado sentiu um cheio de flor no ar, cheiro de jasmim, um ar perfumado. Era um vento que trazia esperanças, mesmo para quem olhava aquela cápsula negra lá no céu. Houve um ânimo geral. Todos ficaram confiantes, aos pouco saíam às ruas. Olhavam como que embasbacados pro céu prateado. Teve quem dissesse que eram os marcianos, que a nuvem negra era um disco voador em visita a terra. A brisa cheirosa oxigenava a todos, tranqüilidade pura. Uns achavam que flutuavam, pairavam, sonhavam.
A concha começou a emitir um suave som, uma música misteriosa, numa propagação de timbres harmoniosos que, misturados ao vento com cheiro de jasmim, davam a impressão de que uma chuva de notas invadia e envolvia o lugarejo. Os sons eram serenos, simples, agradáveis. A população, por um momento, paralisada, esquecia o medo e deixava-se bailar com a chuva de melodias. Era possível dizer que estava tudo suspenso e dançando ao mesmo tempo. As pessoas, provavelmente, não acreditavam no que estava acontecendo, mas se deixavam levar.
E foi assim que num instante, de repente, houve uma súbita transformação na nuvem assustadora. Sempre com aquela musicalidade, com a chuva cheirosa, a concha começou a retrair-se até transformar-se numa flor. A cor preto-cinza perdeu a coloração e deu lugar a um vermelho ávido. O objeto parecia uma rosa escarlate. A metamorfose, se assim pode-se dizer, não parou por aí. A rosa tornou-se uma figura mais arredondada até tornar-se um elo; este foi afinando cada vez mais. O povo, cá em baixo, ficava entre o respiro e o suspiro, poucas palavras. Apenas uma criança sorria observando tudo aquilo através da janela...
Formou-se no céu um lindo anel, de um brilho ofuscante. Junto à música contagiante e o vento cheiroso, tocante, tornava a cidade um lugar fantástico. Todos os corações batiam o mesmo frenético tum-tum, tudo era admiração. De dentro do anel brotou uma luzinha amarela, feixe que cresceu e iluminou toda a nuvem escura. Num tom diferente, um raiozinho desceu na direção do povoado. A luz descia, lentamente. Disseram que era um presente que a cidade recebia dos céus. Aos poucos o povo ia falando, comentando a cena, arriscavam conversas enquanto o raiozinho vinha calmo. A luz, feixe amarelo, descia triunfal. Faltando poucos metros para tocar o chão da cidadezinha que mais parecia uma árvore de natal, o raio parou. E o mundo também parece que se esqueceu de girar. O povo, o raio, tudo estava parado. Num relâmpago que produziu um clarão ofuscante, um raiozinho foi atirado em direção à casa da família da rua Florida. O povo se dividiu entre olhar a flor e raio. O raiozinho, então, retornou rapidamente para o raio maior, que retornou para a flor, lá no céu. Por fim, ouviu-se um estouro apoteótico de fogos de artifício que iluminou com mil cores a noite daquela cidade. O espetáculo acabara. A platéia ainda esperou um bis, -que não veio-, e esqueceu de bater palmas.
Bem, era uma cidadezinha plantada num morro. Por ser pequena, pouco habitantes, logo queriam saber o que havia acontecido. Verificaram que o raio atingira a janela da casa da rua Florida. Da rua, perguntavam a família o que havia acontecido, se havia alguém ferido. Mãe e pai imploravam para que fossem embora, que nada de anormal acontecera, que os deixassem em paz. Mas a curiosidade insistia. Chamaram o delegado para que desse uma busca na casa, que ele procurasse vestígios do raio, e quem sabe algo valioso, o tal presente lá do céu. Inútil. Não havia motivo para tanto. O homem da lei até entrou na casa, mas nada encontrou. O povo, aos poucos, foi sossegando, recolhendo-se a suas casas. Isso já era tarde da noite, a fadiga vencia a novidade. Naquela noite muitos sonharam com luzes.
Depois do tumulto, a família da rua Florida, ainda apreensiva, procurava vestígios do raio que quebrara a janela. Pai e mãe se revezavam nas buscas. Em certo momento, já muito cansados, deram de ombros e resolveram dormir. Quem sabe tudo não passara de um sonho, pensou a mãe. Bruna deitou-se com os pais, ainda havia um resquício de medo. Maria Isabel, ao contrário, ainda guardava um sorriso enigmático quando seus pais a olhavam. De momento a momento, estendia a mão esquerda na intenção de mostrar os dedos. Depois de muito insistir, sua mãe percebeu que a menina tinha um lindo anel prateado no dedo médio. Um anelzinho muito parecido com aquela nuvem que se formara às seis horas da tarde. Foi um choque para a família. De onde havia saído o anel? O raiozinho havia atingido a menina, presenteando-a com o anel, logo concluíram. Os pais tentaram tirar o elo num esforço inútil, estava como que colado à pele. As dúvidas persistiram: que significado havia naquilo? Era um mistério.
Não se sabe por quem, mas não demorou muito e a notícia do aparecimento do anel no dedo da menina surgiu de boca em boca. Para a cidade aquilo era fantástico. Formou-se fila na casa da rua Florida, só para ver o anel no dedo da menina: o povo queria mais detalhes. Os pais, a todos, diziam que nada sabiam. Tudo o que afirmavam era que o anel não saía de jeito nenhum.
***
Os anos se passaram e a cidade foi progredindo, crescendo. As casas eram muitas e a população triplicou. Menina e anel cresceram juntos, estranhamente o anel também cresceu, nunca chegou a apertar o dedo da menina-moça.
E a cidade foi perdendo aquele jeito do interior. É verdade que ainda parecia como que plantada em cima do morro. A árvore de natal estava cheia de adereços. Mas a agitação era maior nas ruas, o morro já não tinha encantos, o verde sumira. Os costumes foram mudando: a civilização também chegou pela TV, o que foi um desencanto para muita gente. Só jornais periódicos havia três, a comunicação tomava conta das informações. Agora existia departamento disso e daquilo, secção disso e daquele outro, indústrias, fábricas, favelas, famintos. Capela, igreja, catedral, visita anual do cardeal. Sábios, feiticeiros, esotéricos, louco de dar nó. Violência, violentados, vítimas e vadios. Uma cidade produtiva, pólo de alguma coisa. Homens e suas máquinas incríveis invadindo os espaços vazios. Terra disputada à faca; água retirada do solo sem pudor. Crise, índices de inflação, desemprego. Por isso e mais um pouco, a câmara dos vereadores deu-lhe um nome definitivo: cidade valorosa de Morro Alegre.
E Maria Isabel acompanhou toda aquela modificação debruçada na janela. Olhava o anel como se ele um dia lhe revelaria um segredo. O pai progrediu na carreira pública, a mãe revelou-se uma cozinheira de mão cheia e abriu um restaurante muito freqüentado no centro da cidade. Bruna fazia a faculdade de veterinária. A vida da família da rua Florida adequara-se ao novo mundo. Da história acontecida há anos atrás, poucos recordavam. Maria Isabel sempre olhava para o anelzinho, esperando. Andava ela agora com quinze anos.
A manhã nasceu fantástica, com um céu azul e os pássaros a dar seus rasantes. Cantavam eles suas canções prediletas de um tempo passado. Maria Isabel também acordou cedo, depois do café disse à mãe que ia até a livraria comprar um caderno novo. Logo que botou o pé na rua, instintivamente, olhou para o anel. Teve a impressão que ele estava mais brilhoso, como se tivesse aceso. No pensamento correu a idéia de que um grande enigma seria decifrado, estava chegando a hora.
Na primeira sinaleira parou perto do meio fio da avenida movimentada. Era preciso esperar o sinal abrir. Nesse momento, como um raio, um menino de uns cinco anos passou no seu lado em direção ao outro lado da via urbana, sem olhar para lado algum. Maria Isabel ficou apreensiva, pois era certo que um carro atingiria o menino, o atropelamento era inevitável. Foi então que Maria Isabel fechou com força os olhos, não queria ver a cena. E num impulso estendeu a mão esquerda - que estava com o anel -, direcionando-a aos veículos. No seu pensamento veio um pedido: “que os carros parassem imediatamente!”. E do seu anelzinho saiu um raio azul, luminoso, em direção à frota que vinha de encontro ao menino. Os carros, como que atendendo ao pedido do pensamento de Maria Isabel, pararam abruptamente. Maria Isabel ficou paralisada por instantes, e depois, nervosa, correu para casa. A Mãe, ao ver a filha tão inquieta, quis logo saber o que havia acontecido. Isabel contou a história, e enquanto falava, o céu da cidade de Morro Alegre escondeu-se atrás das nuvens escuras: uma garoa bateu fina, um cheiro de jasmim era sentido no ar.
Maria Isabel ficou por muito tempo admirando o anel, a vida lhe pedia uma decisão. Logo percebeu que seu anel tinha o poder de remediar a desgraça, desfazer o inevitável, controlar o imprevisível, mudar o curso das coisas. Naquela manhã ela decidiu que deveria seguir um novo caminho. Quando, à noite, todos reunidos na hora do jantar, Maria Isabel explicou que tinha uma missão que não sabia bem qual era, e que aquele anel tinha poderes fantásticos, era hora de enfrentar o mundo. O Pai, a princípio, não acreditou na história, falou que era coisa de adolescente. Que entendia que a filha via muitas coisas erradas no mundo, mas sair mundo a fora, com um anelzinho para sanar as desgraças do mundo, era demais. Mas ela tinha convicção no que dizia, era o destino que lhe apresentava um caminho. Na verdade, pai e mãe tinham medo de perder a filha. Num último esforço, a família pedia para que ela demonstrasse o poder do anel. Então Maria Isabel olhou fixamente para os olhos do pai e apontou a argola. Do rosto dele, lágrimas caíram e todos ficaram emocionados. O anel tinha um poder, não havia dúvida.
***
Assim se passaram muitos anos. Maria Isabel rodou o mundo, sempre com seu anel a realizar proezas fantásticas. Foram anos de trabalho incessante. Um dia, olhando-se no espelho, viu nas rugas uma vida dedicada à paz, a esperança, aos sonhos. Tudo aquele anel podia, era só Maria Isabel pensar que o raiozinho saía em direção ao desejo a ser realizado. Campos queimados, cidades destruídas pelas guerras, crianças famintas chorando: escombros de uma triste humanidade. E Maria Isabel pensava que era hora de descansar, voltar à cidadezinha, rever a família. Os braços de Maria Isabel já não tinham aquela força, os olhos não enxergavam bem, os calos doíam, o coração estava fraco, e o anel... bem, este já não tinha mais aquele brilho. Definitivamente era hora de voltar, de voltar a ter esperança de encontrar aquela cidadezinha que um dia se pareceu com uma árvore de natal plantada no morro. E reencontrar aquela casinha na rua Florida, o quintal e a grama verde, a mesa com violetas multicoloridas, e a janela de onde pudesse observar o céu. Magnífico e estranho céu.
E foi assim que num dia ela voltou, voando com os seus sonhos à Cidade de Morro Alegre. Por longos anos, ali, na casinha, ficou: lendo um livro, bebendo chá, acariciando a cachorra, olhando o infinito. Olhando o céu e pedindo que de lá descesse uma nuvem misteriosa e que se formasse uma linda flor que mandasse um raiozinho para cada habitante daquela cidade e do mundo. E que todos, no mesmo pensamento de bondade, tornassem a vida um sonho, agradável de se nascer, viver e amar.
Escrita em 1989
Para Maria Isabel Bezerra Branchi, minha sobrinha
Digitado em Março de 2005
Cidadezinha do interior. Mundo diferente: casas espalhadas nos morros. Vista de cima, muitas cores a embelezar um mundinho distante. Quem a olhasse de longe, diria se tratar de uma grande árvore de Natal, com suas cores e encantos. As casinhas coloridas pareciam bolinhas de Natal, enfeitando um mundo tranqüilo, calmo, bonito para os olhos e para alma.
Pois era inverno e o minuano, vento gelado por demais, soprava numa intensidade que o povo sentia nos ossos. A maioria dos moradores se protegia em suas casa, à beira do fogão à lenha, enquanto o pão ia assando e a água esquentava para o chimarrão. Em uma ruazinha em particular, chamada Florida, morava uma família italiana, alegre. A casa era modesta, mas a gente percebia que ali havia felicidade pela disposição dos móveis, pelas violetas na janela, pelo quadro na parede, pelas frutas na bandeja. Além do pai e da mãe, havia duas meninas: Bruna e Maria Isabel. A primeira era uma menina dócil, grandes olhos verdes e sonhadores; Maria Isabel, a menor, um par de anos, agitadinha, atenta, e um sorriso que não tinha fim. Bruna, pela manhã, bem cedo, entregava os pães que sua mãe fazia. Encomendas que davam uns trocados extras para a família. Bruna já novinha, sete ou oito anos, percebia que aquele trabalho era duro, que melhor era brincar de boneca com as meninas, mas fazer o quê! À tarde, ia para a escola. Maria Isabel, digamos uma menininha de muita energia, olhar atento, curioso, passava o tempo correndo, mexendo, comendo, vivendo cada minuto. Gostava de se enrolar em velhos novelos de lã, picar jornais já lidos, colar pauzinho de picolé: construir histórias. Seus brinquedos eram aqueles que ela inventava, e assim ela ia criando o seu mundo.
Bem, mas tinha o vento minuano que soprava com fúria naquele dia. Um dia especial. O vento insistia em alguma coisa...
O vento tornava-se a cada instante mais violento e gelado, logo trouxe consigo uma chuva miúda, cortante. O povoado começou a ficar assustado, nunca tinham visto tanta insistência num vento chato, e agora molhado. Vento molhado. E logo vieram raios que desenhavam no céu rios e veredas eletrizantes. A angústia dos moradores aumentava.
A família da rua Florida também ficou preocupada. A mãe, nervosa, olhava pela janela na esperança de que o marido voltasse mais cedo. Ele era funcionário do governo, e sabe-se lá onde andava. Bruna escondia-se entre os cobertores, abafando, assim, o barulho das trovoadas. Lá, entre as cobertas, pensava: “deve ser guerra entre anjos e diabinhos, lá em cima”. Maria Isabel, sempre curiosa, ao lado da mãe na janela, olhava o céu, e se divertia. Estava fascinada com as transformações. Ela sorria, (coisa que só ela entendia).
E a coisa piorava. A manhã era uma noite chuvosa, ventosa, horrível. No relógio da praça central, a mãe observava que eram dez horas. Foi aqui, segundo se comentou depois, que o episódio aconteceu.
Olhando para o céu, via-se as nuvem chocando-se entre si. O medo no povoado era grande. Nas casas, recolhidos, os habitantes diziam que era o fim do mundo, outros amenizavam falando que se tratava de um espetáculo da natureza. De fato todos estavam pasmados, paralisados, esperando o que ia acontecer lá no alto. O meteorologista da cidade foi consultado, disse que era coisa passageira, logo tudo se acalmaria. O tempo passava em câmara lenta, as nuvens aglomeravam-se numa massa que mais parecia um chumbo gigante, com figuras estranhas. Os fiéis dirigiam-se à igreja. O padre, à porta, acalmava os cordeiros dizendo que tudo Deus podia, e o que viesse a acontecer seria para o bem de todos. Para aqueles que não acreditavam em Deus, tudo se dirigia à catástrofe: o morro ia desabar, como certeza.
E a sensação de morte persistia no assustado povoado. Havia gente que já emendava uma promessa e jurava não pecar. A desgraça os deixava mais humildes e unidos. Nas casas, as mães protegiam os filhos, colocando-os nos colos. Cachorros encolhiam-se nos cantos, tinham aquele olhar piedoso. A destruição era certa, as nuvens gigantes e horrorosas desabariam e acabariam com tudo. O tempo passava, era tarde para qualquer pedido de desculpa, o relógio da praça marcava meio dia.
O dia fechou por completo. No céu, as nuvens unidas cada vez mais, formavam uma concha medonha, logo aquilo ia explodir. A concha foi descendo, com certeza ia engolir a cidade. Um morro devorado, tragado. Na casinha da rua Florida, o medo era igual. Mesmo com o marido em casa, quase todos estavam apreensivos, menos a menina Maria Isabel, que só não estava à janela porque o pai a chamara. O fogão à lenha aquecia a todos, o pai até tentava contar uma historia para distrair as meninas, mas com as trovoadas, perdia o rumo . Bruna saíra do cobertor logo que sentiu coragem. Maria Isabel, sempre sorrindo, quando dava, espiava a concha. Talvez ela esperasse alguma coisa...
E o tempo passava, todos naquela apreensão. No relógio da praça avistava-se seis horas da tarde. O povoado sentiu um cheio de flor no ar, cheiro de jasmim, um ar perfumado. Era um vento que trazia esperanças, mesmo para quem olhava aquela cápsula negra lá no céu. Houve um ânimo geral. Todos ficaram confiantes, aos pouco saíam às ruas. Olhavam como que embasbacados pro céu prateado. Teve quem dissesse que eram os marcianos, que a nuvem negra era um disco voador em visita a terra. A brisa cheirosa oxigenava a todos, tranqüilidade pura. Uns achavam que flutuavam, pairavam, sonhavam.
A concha começou a emitir um suave som, uma música misteriosa, numa propagação de timbres harmoniosos que, misturados ao vento com cheiro de jasmim, davam a impressão de que uma chuva de notas invadia e envolvia o lugarejo. Os sons eram serenos, simples, agradáveis. A população, por um momento, paralisada, esquecia o medo e deixava-se bailar com a chuva de melodias. Era possível dizer que estava tudo suspenso e dançando ao mesmo tempo. As pessoas, provavelmente, não acreditavam no que estava acontecendo, mas se deixavam levar.
E foi assim que num instante, de repente, houve uma súbita transformação na nuvem assustadora. Sempre com aquela musicalidade, com a chuva cheirosa, a concha começou a retrair-se até transformar-se numa flor. A cor preto-cinza perdeu a coloração e deu lugar a um vermelho ávido. O objeto parecia uma rosa escarlate. A metamorfose, se assim pode-se dizer, não parou por aí. A rosa tornou-se uma figura mais arredondada até tornar-se um elo; este foi afinando cada vez mais. O povo, cá em baixo, ficava entre o respiro e o suspiro, poucas palavras. Apenas uma criança sorria observando tudo aquilo através da janela...
Formou-se no céu um lindo anel, de um brilho ofuscante. Junto à música contagiante e o vento cheiroso, tocante, tornava a cidade um lugar fantástico. Todos os corações batiam o mesmo frenético tum-tum, tudo era admiração. De dentro do anel brotou uma luzinha amarela, feixe que cresceu e iluminou toda a nuvem escura. Num tom diferente, um raiozinho desceu na direção do povoado. A luz descia, lentamente. Disseram que era um presente que a cidade recebia dos céus. Aos poucos o povo ia falando, comentando a cena, arriscavam conversas enquanto o raiozinho vinha calmo. A luz, feixe amarelo, descia triunfal. Faltando poucos metros para tocar o chão da cidadezinha que mais parecia uma árvore de natal, o raio parou. E o mundo também parece que se esqueceu de girar. O povo, o raio, tudo estava parado. Num relâmpago que produziu um clarão ofuscante, um raiozinho foi atirado em direção à casa da família da rua Florida. O povo se dividiu entre olhar a flor e raio. O raiozinho, então, retornou rapidamente para o raio maior, que retornou para a flor, lá no céu. Por fim, ouviu-se um estouro apoteótico de fogos de artifício que iluminou com mil cores a noite daquela cidade. O espetáculo acabara. A platéia ainda esperou um bis, -que não veio-, e esqueceu de bater palmas.
Bem, era uma cidadezinha plantada num morro. Por ser pequena, pouco habitantes, logo queriam saber o que havia acontecido. Verificaram que o raio atingira a janela da casa da rua Florida. Da rua, perguntavam a família o que havia acontecido, se havia alguém ferido. Mãe e pai imploravam para que fossem embora, que nada de anormal acontecera, que os deixassem em paz. Mas a curiosidade insistia. Chamaram o delegado para que desse uma busca na casa, que ele procurasse vestígios do raio, e quem sabe algo valioso, o tal presente lá do céu. Inútil. Não havia motivo para tanto. O homem da lei até entrou na casa, mas nada encontrou. O povo, aos poucos, foi sossegando, recolhendo-se a suas casas. Isso já era tarde da noite, a fadiga vencia a novidade. Naquela noite muitos sonharam com luzes.
Depois do tumulto, a família da rua Florida, ainda apreensiva, procurava vestígios do raio que quebrara a janela. Pai e mãe se revezavam nas buscas. Em certo momento, já muito cansados, deram de ombros e resolveram dormir. Quem sabe tudo não passara de um sonho, pensou a mãe. Bruna deitou-se com os pais, ainda havia um resquício de medo. Maria Isabel, ao contrário, ainda guardava um sorriso enigmático quando seus pais a olhavam. De momento a momento, estendia a mão esquerda na intenção de mostrar os dedos. Depois de muito insistir, sua mãe percebeu que a menina tinha um lindo anel prateado no dedo médio. Um anelzinho muito parecido com aquela nuvem que se formara às seis horas da tarde. Foi um choque para a família. De onde havia saído o anel? O raiozinho havia atingido a menina, presenteando-a com o anel, logo concluíram. Os pais tentaram tirar o elo num esforço inútil, estava como que colado à pele. As dúvidas persistiram: que significado havia naquilo? Era um mistério.
Não se sabe por quem, mas não demorou muito e a notícia do aparecimento do anel no dedo da menina surgiu de boca em boca. Para a cidade aquilo era fantástico. Formou-se fila na casa da rua Florida, só para ver o anel no dedo da menina: o povo queria mais detalhes. Os pais, a todos, diziam que nada sabiam. Tudo o que afirmavam era que o anel não saía de jeito nenhum.
***
Os anos se passaram e a cidade foi progredindo, crescendo. As casas eram muitas e a população triplicou. Menina e anel cresceram juntos, estranhamente o anel também cresceu, nunca chegou a apertar o dedo da menina-moça.
E a cidade foi perdendo aquele jeito do interior. É verdade que ainda parecia como que plantada em cima do morro. A árvore de natal estava cheia de adereços. Mas a agitação era maior nas ruas, o morro já não tinha encantos, o verde sumira. Os costumes foram mudando: a civilização também chegou pela TV, o que foi um desencanto para muita gente. Só jornais periódicos havia três, a comunicação tomava conta das informações. Agora existia departamento disso e daquilo, secção disso e daquele outro, indústrias, fábricas, favelas, famintos. Capela, igreja, catedral, visita anual do cardeal. Sábios, feiticeiros, esotéricos, louco de dar nó. Violência, violentados, vítimas e vadios. Uma cidade produtiva, pólo de alguma coisa. Homens e suas máquinas incríveis invadindo os espaços vazios. Terra disputada à faca; água retirada do solo sem pudor. Crise, índices de inflação, desemprego. Por isso e mais um pouco, a câmara dos vereadores deu-lhe um nome definitivo: cidade valorosa de Morro Alegre.
E Maria Isabel acompanhou toda aquela modificação debruçada na janela. Olhava o anel como se ele um dia lhe revelaria um segredo. O pai progrediu na carreira pública, a mãe revelou-se uma cozinheira de mão cheia e abriu um restaurante muito freqüentado no centro da cidade. Bruna fazia a faculdade de veterinária. A vida da família da rua Florida adequara-se ao novo mundo. Da história acontecida há anos atrás, poucos recordavam. Maria Isabel sempre olhava para o anelzinho, esperando. Andava ela agora com quinze anos.
A manhã nasceu fantástica, com um céu azul e os pássaros a dar seus rasantes. Cantavam eles suas canções prediletas de um tempo passado. Maria Isabel também acordou cedo, depois do café disse à mãe que ia até a livraria comprar um caderno novo. Logo que botou o pé na rua, instintivamente, olhou para o anel. Teve a impressão que ele estava mais brilhoso, como se tivesse aceso. No pensamento correu a idéia de que um grande enigma seria decifrado, estava chegando a hora.
Na primeira sinaleira parou perto do meio fio da avenida movimentada. Era preciso esperar o sinal abrir. Nesse momento, como um raio, um menino de uns cinco anos passou no seu lado em direção ao outro lado da via urbana, sem olhar para lado algum. Maria Isabel ficou apreensiva, pois era certo que um carro atingiria o menino, o atropelamento era inevitável. Foi então que Maria Isabel fechou com força os olhos, não queria ver a cena. E num impulso estendeu a mão esquerda - que estava com o anel -, direcionando-a aos veículos. No seu pensamento veio um pedido: “que os carros parassem imediatamente!”. E do seu anelzinho saiu um raio azul, luminoso, em direção à frota que vinha de encontro ao menino. Os carros, como que atendendo ao pedido do pensamento de Maria Isabel, pararam abruptamente. Maria Isabel ficou paralisada por instantes, e depois, nervosa, correu para casa. A Mãe, ao ver a filha tão inquieta, quis logo saber o que havia acontecido. Isabel contou a história, e enquanto falava, o céu da cidade de Morro Alegre escondeu-se atrás das nuvens escuras: uma garoa bateu fina, um cheiro de jasmim era sentido no ar.
Maria Isabel ficou por muito tempo admirando o anel, a vida lhe pedia uma decisão. Logo percebeu que seu anel tinha o poder de remediar a desgraça, desfazer o inevitável, controlar o imprevisível, mudar o curso das coisas. Naquela manhã ela decidiu que deveria seguir um novo caminho. Quando, à noite, todos reunidos na hora do jantar, Maria Isabel explicou que tinha uma missão que não sabia bem qual era, e que aquele anel tinha poderes fantásticos, era hora de enfrentar o mundo. O Pai, a princípio, não acreditou na história, falou que era coisa de adolescente. Que entendia que a filha via muitas coisas erradas no mundo, mas sair mundo a fora, com um anelzinho para sanar as desgraças do mundo, era demais. Mas ela tinha convicção no que dizia, era o destino que lhe apresentava um caminho. Na verdade, pai e mãe tinham medo de perder a filha. Num último esforço, a família pedia para que ela demonstrasse o poder do anel. Então Maria Isabel olhou fixamente para os olhos do pai e apontou a argola. Do rosto dele, lágrimas caíram e todos ficaram emocionados. O anel tinha um poder, não havia dúvida.
***
Assim se passaram muitos anos. Maria Isabel rodou o mundo, sempre com seu anel a realizar proezas fantásticas. Foram anos de trabalho incessante. Um dia, olhando-se no espelho, viu nas rugas uma vida dedicada à paz, a esperança, aos sonhos. Tudo aquele anel podia, era só Maria Isabel pensar que o raiozinho saía em direção ao desejo a ser realizado. Campos queimados, cidades destruídas pelas guerras, crianças famintas chorando: escombros de uma triste humanidade. E Maria Isabel pensava que era hora de descansar, voltar à cidadezinha, rever a família. Os braços de Maria Isabel já não tinham aquela força, os olhos não enxergavam bem, os calos doíam, o coração estava fraco, e o anel... bem, este já não tinha mais aquele brilho. Definitivamente era hora de voltar, de voltar a ter esperança de encontrar aquela cidadezinha que um dia se pareceu com uma árvore de natal plantada no morro. E reencontrar aquela casinha na rua Florida, o quintal e a grama verde, a mesa com violetas multicoloridas, e a janela de onde pudesse observar o céu. Magnífico e estranho céu.
E foi assim que num dia ela voltou, voando com os seus sonhos à Cidade de Morro Alegre. Por longos anos, ali, na casinha, ficou: lendo um livro, bebendo chá, acariciando a cachorra, olhando o infinito. Olhando o céu e pedindo que de lá descesse uma nuvem misteriosa e que se formasse uma linda flor que mandasse um raiozinho para cada habitante daquela cidade e do mundo. E que todos, no mesmo pensamento de bondade, tornassem a vida um sonho, agradável de se nascer, viver e amar.
Escrita em 1989
Para Maria Isabel Bezerra Branchi, minha sobrinha
Digitado em Março de 2005
Tio, eu tenho essa história aqui em casa que um dia tu me deu! Adoro ela e de vez enquando eu leio só para lembrar das coisas que realmente importam.
ResponderExcluirObrigada, tio. Até me emocionei.
Bjooo, t amo tio!
Bel.
Eu é que agradeço a história que me deu.
ResponderExcluireu tinha o anel, perdi.
beijo, tio