segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O TRAVESTI

O Travesti

Eu andava lá pelos treze anos, sexta série, colégio Floriano Peixoto, a mão já acostumada a procurar as partes íntimas do corpo adolescente. Na turma da oitava tinha um cara estranho, Gustavo, e aquela estranheza, botando todos os pontos nos lugares, é que ele era um guri bem mais bonito que os outros. Ele era uma mulher, e depois, bem depois, fiquei sabendo que ele trabalhava na noite, na Rua São Carlos, ali pertinho, fazendo ponto, se virando. Então eu começava a entender, definitivamente, com um pouco de surpresa ainda, que homens se sentiam mulheres, e que mulheres podiam se sentir homens, e vice-versa valsando valsa. Antes eu tinha a idéia que bichinha era um sem-vergonha. Demorei, mas entendi.
Acontece que na minha Zona, no Bairro Floresta, tinha a Priscila. A Priscila era uma beldade, morria-se por sua beleza. Ah, além de ser filha do seu Antônio, o dono da bodega mais próspera... Priscila gostava do Alfinete, filho do dono do Bar Caçulinha, mas isso não tem nada a ver com o caso.
Então a história era essa: um dia todos souberam que o Gustavo era travesti, que se virava. Na hora do recreio, numa partida de vôlei, Gustavo deu uma cortada no porongo da Priscila. Para quê! A loirinha subiu nos tamancos, e entre impropérios pouco meigos, Priscila sentenciou:
- Bicha!
Ah, aí fedeu. Gustavinho subiu nas sandálias e se agarrou nos cabelos da menina. A coisa foi histérica, mas eu me divertia. Lá pelas tantas o Kalil propôs:
- Vamos disputar na base da beleza. Hoje à noite, na São Carlos, eleição entre o Gustavo e a Priscila da mais bonita da Zona.
Concordaram. Só que Gustavo obtemperou:
- Minuto: na noite sou Angélica.
Lá pelas oito da noite, improvisaram uma passarela na rua. Tinha até apresentador. O pessoal que passava, parava, se integrando ao movimento. Não demorou muito, as concorrentes chegaram. Eu não tinha direito a voto, mas espichei o olhar muito obstinadamente na traseira da Angélica. A bunda haviam crescido uma barbaridade, seu rosto estava maquiado, a roupa era tigresinha, e seios! Dois, bem grandes. Confesso: a concorrente estava bela.
E a Priscila se apresentava mais linda do que nunca. E, no desfile, a bem da verdade, a Priscila deu um show. O pleito decidido com voto aberto, mão erguida: Priscila ganhou longe, acho que júri ficou com medo de votar na Mona. Festa acabada, eleição sacramentada, Priscila vencedora e Gustavinho chorando. Uma cena.
Fiquei com pena, mas também o concurso era desigual. E eu compreendia que a vida era desigual em todos os cantos, em tudo, e ali também.
Anos depois fiquei sabendo que Priscila casara, que tivera dois filhos, e que era feliz. Fiquei sabendo que Angélica também havia casado com um mestre de obra, famoso, que não tinham filhos, mas que eram muito, muito felizes.

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