O RATÃO
Acontece que o ratão já vinha se insinuando há muito tempo. A família não admitia ou permitia mais um intruso. Afinal, éramos onze numa casa de dois quartos, assoalho surrado, divisória de madeiras, não havia lugar para o bichano que ameaçava o açúcar, o pão dormido e a saúde da gurizada. O negócio era armar uma cilada para o medonho, sem pudor, péin, na orelha, sem volta, morte rápida.
Quem teve a idéia foi o Tonico: um espelho na porta do buraco, reflexo invertido, a gente ficava de tocaia, e quando ele se refletisse, pimba!. Um tiro de arminha de pressão que eu nunca fiquei sabendo quem comprou, como sumiu, que fim levou.
Buenas. O Tonico era metido a atirador. É verdade que tinha uma mão só, perdeu a direita numa brincadeira com um jacaré fêmea do Zoológico. Ele sabia manejar aquela arminha como ninguém. Com o toco engatilhava, com a boca botava o chumbinho, e num clique habilidoso deixava a bicha pronta. A gente ficava olhando, admirado com tanta habilidade, o toquinho era bom. Nunca ninguém o viu matar um passarinho, só um estilhaço numa tartaruga do Velho Rio Guaíba, que ainda sobreviveu anos. Mas o Tonico, que o nome era Antônio, era o cara.
Mas volto só um pouquinho à ratazana, grandota, feia. Todo mundo sabia que o bichano andava por lá, roendo os cantos, rabiscando apressada os estreitos corredores. A gota d'água se deu – e se ela não tivesse feito isso acho que estaria até hoje lá – quando a encontramos enroladita num capote da velha Rede Ferroviária do Estado do Rio Grande do Sul, herança do meu pai. E pior, o capote estava em cima da cama. Foi uma afronta para a mãe. Reuniu os filhos e disse que queria ver aquele rato morto.
Pois bem, sabíamos dos seus hábitos. Ele saía do porão, entrava na lixeira dos fundos, e, pressentindo ameaças, corria de volta para o beco escuro, debaixo da casa. Era fácil pegá-lo, desconfiava era do tiro certeiro do Tonico. Mas vamos juntos.
E então naquele sábado ensolarado acordamos resolvidos a dar fim na fera. Armamos o espelho, debruçamos na janela, fizemos um revezamento de dois por dois, e aguardamos. Para dizer a verdade acho que foram três horas de silêncio absoluto em que o rato nem deu as caras. A arma engatilhada, o olho na mira, nada do bandido. Por decisão unânime, depois daquela longa espera, desistimos da empreitada. Digo mais, eles desistiram, por que eu era um piazito paciente que poderia ter ficado mais três esperando o intruso. Mas Luiz, Doro, Paulinho e o atirador, tomaram a sábia decisão de desistir. Forom jogar bola na praça Bartolomeu de Gusmão. Acho que o bicho pressentiu a estratégia e a artilharia pesada, fez as malas e partiu, de canto.
E só pra não dizer que minto: antes de me afastar e também correr a praça, juro que vi o malvado me dando um espiadinha do buraco...
E essa história é tão verdadeira quando o capote da Rede Ferroviária que guardo até hoje pendurado atrás da porta de jacarandá da sala.
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