quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Bonifácio - Enterro

Bonifácio - Enterro


- Será que o plano de saúde cobre a despesa do enterro?


- Funcionário público, raia média. Pelo que sei, não tinha direito nem a caixão de pinheiro. Tu vê, nem um salgadinho pra gente. Olha o coveiro...Nossa!


Bonifácio aguardava na entrada principal, olhava o céu nublado e avaliava: a chuva seria grossa? Guarda-chuva não trouxera.


A viúva entrou solenemente. Toda de preto, exceto pela guia do Senhor do Bom Fim, vermelha. O assoalho havia sido lustrado não fazia muito.
O defunto estava lá, esticado, uma cara de quem deixava dívidas e remorsos.
O outro cutucou:
- Olha aí, nenhuma lágrima.
- Eu disse, eu disse. Psiu! Tem bala aí?
O Padre só chegaria as quatro, o cemitério fechava as cinco, muito roubo naquele fim de mundo. O jeito era enganar o estômago com um cafezinho no boteco do outro lada da rua, a coisa se arrastava sem graça alguma.


Não, não, não. Ia ser fina a chuva, pensou Bonifácio. Entrou na capela, uma ave-maria e dava-se por terminada a empreitada.










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