quarta-feira, 2 de março de 2011

Moacyr Scliar – Bonifácio

Moacyr Scliar – Bonifácio

Sentei no auditório lotado e esperei com impaciência o escritor. Sujeito magro e sem graça, cabelo pintado e barbicha aparada, traje simples. Não tinha pinta de gente importante. Melhor: não tinha pose. Pensei em dar crédito, dar-lhe uma chance, afinal já eram quase cinqüenta livro publicados. Importante dizer que eu era jovem, um adolescente.

- Então, escrever é um trabalho como qualquer outro. É dedicar-se. É suar e fazer os miolos funcionarem, brigar com as palavras e fazer as pazes com elas. Se há dom? Certamente, todos temos inclinações para fazer as coisas. Eu escrevo. E minhas futuras histórias estão aí, soltas. Tenho a rede e as pego no ar. Levo com carinho para a escrivaninha do meu escritório e lá me debruço num trabalho de quebra-cabeça com as idéias, palavras, frases, personagens, histórias, sentimentos, ingredientes que posso misturá-los, como um bolo. Escrever é o meu trabalho. Ofereço um pedaço do meu bolo aos leitores. Se gostarem, isso me alegra profundamente, e me habilita a oferecer o resto dele. Ah, também sou médico sanitarista. Trabalhei muito tempo na Santa Casa de Misericórdia. Também jogo basquete, mas isso não vem ao caso.

A voz era de uma doçura impressionante. Eu fiquei desconfiado como só os jovens podem desconfiar das coisas mais doces que a vida pode nos oferecer. Julguei que se tratava ou de um grande escritor ou um grande vendedor de sabonetes. A minha juventude intrometia-se num julgamento mais doce.

Um colega ao lado me segredou:

- É Judeu!

Como eu não sabia se ser judeu era bom ou ruim, dei de ombros. Já tinha ouvido noutros tempos:

- É italiano, não vê! É russo o coitado. Só podia ser japonês... Argentino, o cara é.

E por aí, adiante.

No final do encontro, com “O Ciclo das Águas” nas mãos, fui buscar um autógrafo, um prêmio por minha participação. Eu estava magnetizado. Perguntou meu nome, deu um sorriso generoso e escreve:

“Ao Bonifácio: à sua altura e inteligência”.

Agradeci. Saí da sala com o livro no braço, pensando:

- Êta Judeuzinho inteligente.

crédito da foto: Deodoro Branchi, em SC


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