Bonifácio: O Namoro
Bonifácio pegou o revólver, apontou para a cabeça e puxou o gatilho. Bonifácio queria morrer, e morrer por causa de Isaura, sua namorada. Bonifácio puxou o gatilho mas a arma falhou. Um clik pífio e o homem não morreu, não apareceu no Capital Notícias da cidade. A arma não prestava; Bonifácio, sim. Desistira de viver, era homem de decisão.
Isaura era uma daquelas mulheres espetaculares. Quando andava, se balançava e dançava, e tudo que havia a sua volta parava para lhe deixar passar. Isaura era uma beldade, doce, se vestia de branco, rodava a saia rendada. Corria na esquina, comprava um abacaxi, fazia um suco e bebericava à soleira da porta do número setecentos e vinte e quatro. Isaura sabia das suas qualidades e por isso judiava dos mortais pretendentes. Isaura era diaba de bonita.
Entre lapsos de tempo e outro pouco, um ano antes do trabuco falhar, Bonifácio se apaixonara de uma forma tal pela vizinha da frente que andava doente de amor. Acontece que ele não tinha como declarar o seu desejo, o rapaz era tímido, um leitor de romances de amor. Quase não saía, só estudava. E as revistas de mulher pelada as tinha escondidas no guarda-roupa desativado no quarto do quintal. O homem, o máximo que fazia, era espiar a beleza de Isaura quando passava na rua, através da cortina semitransparente do quarto da frente da Vovó Isabel. E só.
Um dia, Bonifácio bebeu um licorzinho de cacau, bebeu coragem e foi bater à casa da pretendida. Ofendida, exibida, casca de ferida, a moça bate-lhe à porta, como que lhe dizendo: te mata! No outro dia, Bonifácio bebeu dois licoreszinhos de cacau e bateu novamente à porta da amada. -Te mata duas vezes, disse ela. E assim, dia a dia, a garrafa de licor ficou seca e o coração do Bonifácio era maracujá esquecido na gaveta.
Na última tentativa, Bonifácio, sóbrio e sem licor, foi à casa de Isaura. Deu um murro na porta que acordou José, o gato de estimação dela:
- Se não me aceitares, me mato!
Ela respondeu:
- Deixa isso para mais tarde, entra, venha provar meu suco de abacaxi.
Quando Bonifácio botou a arma na cabeça, lembrou perfeitamente do mediúnico “deixa isso para mais tarde” de Isaurinha. O tempo ia se encarregar de acrescentar histórias à vida dos dois. A arma havia falhado, outro rumo haveria de tomar. Foi à venda do seu Antônio e comprou uma garrafa inteirinha de licor de cacau. Isaura que o aguardasse...
Em abril 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
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