quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PRIMEIRA SÉRIE

Primeira Série


O meu pai sempre esteve ao meu lado. Lembro-me de quando eu era criança, não sei a idade que tinha, meu pai era o meu herói. Mentira. Meu pai sempre foi uma grande mentira. Meu pai foi as minhas lágrimas na carteira do colégio:
- Alberto, em que teu pai trabalha?
Quem era aquela professora horrível que vinha fazer uma pergunta dessas a um menino em frequente estado de constipação, aluno da primeira série de colégio estadual? Era uma bruxa. Ela era malvada por fazer perguntas capciosas num momento em que eu só pensava em desenhar o meu nome na classe e mostrá-lo ao colega ao lado.
- Alberto! Fiz-lhe um pergunta.
O que ela queria que eu respondesse? Queria que eu dissesse que ele era psicólogo? Queria que eu dissesse que meu pai sempre esteve ao meu lado, aconselhando-me, ajudando nas difíceis lições das primeiras letras? A, abelha; B, bola. C, cebola. Queria que eu dissesse que ele até me ajudava a pintar o desenho? Que ele havia comprado um lindo carrinho no centro da cidade no dia da criança e que me dera com um amável sorriso no rosto? E que ainda dissera: tu merece, filhinho.
- Alberto? Estás surdo, Alberto. Alberto?
Eu tinha sete anos de idade e mais adiante aquela professora iria colocar no boletim: reprovado. E aquela reprovação marcaria todo a minha vida escolar: eu nunca mais seria reprovado. Aprender tornar-se-ia um tormento, cada prova seria uma batalha. Estava fadado a ser aluno-problema por toda a minha existência estudantil.
- Alberto! O que o seu pai faz na vida?
Eu queria apenas pintar o meu nome na classe. Eu já sabia escrever, com certa perfeição, meu nome: Alberto. Eu havia treinado mil vezes este belo nome. Queria colocá-lo na classe e impressionar o colega ao lado. Mas meu coleguinha nem dava bola, e a professora queria saber em que meu pai trabalhava.
- Ele é mecânico.
Eu não sabia ao certo se meu pai era mecânico. Eu sabia pouco sobre o meu pai. Sabia que falar dele ou nele era problema na certa. Tabu. Eu poderia ter inventado mil histórias à professora, sempre fui metido a contar histórias, um Joãozinho. Mas a professora não merecia minhas mentiras, eu precisaria delas mais tarde, por que gastá-las na inocente infância?
A professora poderia ter perguntado sobre a minha mãe. Ai então eu responderia:
- A minha mãe também não ocupou um grande espaço na minha infância. Verdade. Lembro-me dela altas horas da noite, alinhavando um vestido para uma dona de boutique: que tinha os cabelos pintados, que todos os meses viajava para a grande metrópole comprar os últimos lançamentos da moda, que pagava uma miséria para minha mãe.
A professora não insistiu mais na pergunta. Uma bruxa! Eu terminei de desenhar o meu nome na classe. Mais tarde, já com barbas na cara, vim a conhecer melhor meu pai. Triste. Era uma pessoa triste. Minha mãe alinhavando para dar sustento a um bando de meninos constantemente constipados. Meu pai triste, sem saber por que veio.

Em 2008

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