Pesadelo
Foi um pesadelo.
Minha vida com ela já não era mais a mesma. Não havia amor, só uma convivência implicante. Não éramos mais felizes e nos aturávamos mutuamente. Era dolorosa aquela situação, eu não a suportava mais, mesmo assim repartíamos o pão nosso de cada dia, e nossas misérias também.
Acontece que ainda éramos lindos, um e outro. A beleza dela, de alguma forma, me contagiava, me atingia e eu nutria algum sentimento profundo que não podia esquecer, controlar. Isso nos mantinha, acho. Foi quando aconteceu mais um drama na nossa pequena tragédia.
Um jovem rapaz, gordo, alto e confiante da sua arrogância, veio entregar agendas na nossa casa. No escritório, ela recebeu as agendas que nem bem eu sabia para quê tantas. O rapaz pediu que ela lhe devolvesse a agenda antiga. Nesse exato momento eu disse que não podíamos entregá-la uma vez que haviam muitas coisas escritas nela, nosso passado. O rapaz impetuoso disse “não quero nem saber”, que queria já. No momento em que ela esticou o braço para alcançar a agenda, eu gritei que não a desse. Os dois se entreolharam. Desconfiei na hora que existia algo secreto entre os dois.
A agenda não foi entregue ao garoto. Fiquei no escritório enquanto ela o acompanhava até a porta, presumi. Pouco depois saí do escritório e passando pelo corredor os surpreendi saindo do quarto de hóspedes. Ele com uma cara de satisfeito e muito suado, principalmente no rosto, vermelho; ela também satisfeita, descabelada, mas preocupada por humilhar-me mais uma vez.
Minha casa caiu mais um pouco e eu me senti abatido, como um boi enlaçado a espera da castração. Ela ainda me contou que havia mais dois ou três amantes além do rapaz gordo e debochado. O garoto satisfazia-se como um animal naquela que um dia tanto amei.
Daí para frente, tudo mais foi tristezas e incertezas, somas de erros, pecados, lágrimas. Minha estrada tinha chegado no fim da linha, luz não tinha a minha frente.
Foi apenas um triste castigo. Um pesadelo.
Em 23.06.2009
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