Bonifácio: A Amizade
Na infância de Bonifácio, Jorge fora o seu melhor amigo. Era uma daquelas amizades construídas na brincadeira, na descoberta, dia após dia. Estudavam na mesma sala de aula, emprestavam apontadores e elaboravam seus trabalhos juntos. Quando zebrava alguma coisa, socorriam-se. Quando o assunto era meninas, trocavam informações sigilosamente apressadas.
Futebol era brincadeira número um. A bola era tipo dente de leite, furada, que quando pegava na coxa dava um chupão desrespeitoso. Naqueles frios do sul, onde moravam, uma bolada seca tirava lágrimas dos olhos, mas, valente jogadores, seguiam o chute a chute que ia até cinco gols. Chute a chute consiste num jogo de quadra inteira de futebol de salão, de um lado da quadra até a outra. Matando a bola no peito ou na cabeça, pode-se chutar do meio do campo, facilitando a vida e aumentando as possibilidades. Aquelas partidas duravam tardes e manhãs, Bonifácio e Jorge entregavam-se com paixão à rinha, a existência se explicava no gol a gol.
Outra brincadeira recorrente era de brummm. Carentes, cada um tinha um carrinho. Na praça, desenhavam no areão pistas intermináveis, com postos de gasolina, casas, estacionamentos, escolas. E inventavam diálogos inacabáveis quando se encontravam propositalmente no meio do caminho. E ainda falavam sobre as suas esposas, os filhos, a escola, coisas sérias, pois. A vida ia bela e cheia de pequenas aventuras.
Acontece que Jorge não apareceu na aula na segunda-feira. Nem na terça e aí foi a semana inteira. Na sexta-feira da mesma semana, Bonifácio foi à casa do amigo. Quem lhe atendeu foi a sua Vovó. Disse-lhe que o neto tinha sido internado às pressas no hospital, doença malvada que não lhe daria chance de rebote. Saiu dali inseguro, entristecido e inconformado. Nele choveu frio e o vento apagaria as pistas dos carrinhos desenhadas na areia da praça.
Bonifácio, depois da não volta do amigo, seguiu a vida amargando uma derrota inconcebível, sem revanche ou prorrogação. No chute a chute, jogava sozinho nos dois lados da quadra; na pista de corrida, Jorge era a mão esquerda que guiava o carro azul do amigo. Bonifácio levaria mais de uma vida para compreender a falta que a amizade do Jorge lhe faria. Na hora de dormir, o menino conversava com Jorge e agradecia à vida por lhe ter ensinado desde cedo o valor daquela grandeza. A grandeza da verdadeira amizade.
Parabéns mais uma vez. Recomendações ao Bonifácio.
ResponderExcluirO darei. abraço, amigo.
ResponderExcluiralexandre